Um pouco de água no rosto, de preferência quente. Mas na casa do Salles não havia uma torneira com água quente. Depois, aplicar um pouco de espuma nas áreas da face e do pescoço, acender um cigarro... Então, é preciso que a lâmina esteja posicionada rente à pele, os movimentos leves e precisos para cima ou para baixo, nunca para os lados. Fazer uma barba era uma experiência sagrada para Salles; para ele, a soberba eficácia dos aparelhos
Mach 3 ou
Philishave acabaram por destruir a dignidade ontológica de um homem poder desfrutar de todo o tempo que se fizer necessário para melhor aparar seus pêlos do rosto. Isso sem mencionar a indiscutível superioridade da precisão proporcionada por uma boa navalha.
Continuava ali nesse exercício prodigioso, de vez em quando dando um trago em seu cigarro deixando a enorme cinza se espatifar silenciosamente dentro da pia. Pensava em Cole Porter e seus dois preferidos intérpretes
(“Afinal, Ella ou Sinatra?”) e no quanto esses exercícios de comparação acabam sendo somente um pequeno jogo onde não há vencedores ou vencidos.
“Mas como preferir um a despeito do outro? Chaplin ou Keaton? Pelé ou Garrincha? Bossa nova ou samba? Cachaça ou vodka?” E assim ia,
ad infinitum. Nesse momento em que sua mente se encontrava completamente imersa no jogo - em que a única regra consistia em eleger dois titãs de uma mesma categoria, colocá-los face a face no ringue e, antes da luta se iniciar, considerar um empate técnico – seu celular, como um cínico zombeteiro, grita ansioso em seu quarto. Nada deixava Salles mais mal-humorado do que atender um telefone, principalmente no dia e hora reservados para se aparar a barba. Não obstante, sentia uma terrível culpa em não atender uma chamada, por mais que aquilo o incomodasse sobremaneira, não conseguia simplesmente deixar tocar. Sempre se imaginava responsável pelo acaso de não ter respondido uma chamada.
“Violeta.”, murmurou após olhar o visor do aparelho. E, nesse milésimo de segundo que separou a conferência da chamada e o ato de atendê-la, Salles intrigou-se com aquela pequena máquina que tinha em suas mãos. Antes era preciso girar uma manivela para chamar a telefonista, colocar um cone de madeira no ouvido e falar através de um orifício. Pelo menos agora não corria o risco de ser incomodado pelo barulho estridente daquela campainha composta por dois gongos cilíndricos metálicos separados por um pequeno martelo que os vibrava em uníssono quando recebia ligações.
- Oi? - atendeu secamente.
- Sal! - a voz de Violeta estava trêmula, o nervosismo era óbvio - Querido, é que eu estou com pressa, me explique o que é dialética do discurso...
“Por sorte, tudo vai muito bem no melhor dos mundos possíveis”. Salles lembrou-se dessa frase, lida em algum livro, que fazia alusão à
“Cândido”. - O quê?!?! – perguntou subitamente, ainda meio sem entender, procurando se inteirar de mais detalhes daquela situação absurda.
- Estou saindo da aula e meu professor falou isso, me ajuda...
- E você precisa disso nesse instante? -
“ Onde errei nesse processo? Espuma, navalha, posicionamento da navalha no rosto, o cigarro, espelho na frente para as devidas orientações espaciais, o pensamento no jogo... E agora essa!!! Dialética do discurso em dois minutos por telefone...”
- É Sal! Pra ontem porra! Quebra o galho pra mim!
- Violeta me fala pelo menos o contexto da...
- Não tenho tempo para contextos! Me diz aí o que você puder...
- Tente um dicionário ou...
- Não enche Sal, vai!
- Ok then...
Em tempo recorde, e não com muita destreza na oralidade (que fora sempre o seu fraco, tinha predileção pela palavra escrita), Salles discorreu de Platão a Hegel, de Wittgenstein a Barthes, tropeçando nas palavras, tentando com afinco – e a contragosto - ser claro e distinto num instante em que só obscurantismo e conceitos fugidios vinham-lhe ao pensamento. Noel e sua gagueira apaixonada saltaram-lhe à cabeça naquele instante:
“Mu... mu... mulher, em mim fi... zeste um estrago/ Eu de nervoso esto... tou fi... ficando gago”. Tentava se concentrar para não gaguejar, mas também para não rir do sambinha desajeitado do moço de Vila Isabel:
“Clareza, distinção, falar pausadamente. Clareza, distinção, falar pausadamente...”. Por fim conseguiu arrancar algum bloco meteórico de incertezas e transmiti-las para Violeta.
- Obrigado querido! Salvou meu dia! Cervejinha no
“Vittorio’s” quinta-feira?
- É uma...
- Combinado então. Beijo!
- Beijo!
“CLAP!” Uniu as duas mãos num tapa, balançando-as e olhando para o alto como que numa súplica aos céus. Tentava entender como todas as coisas mais irrelevantes (como a dialética do discurso) de repente se tornaram as coisas mais urgentes. E, no final, como todas as coisas se tornam urgentíssimas! É necessário correr e escrever logo o projeto de mestrado, ou começar uma pós-graduação em criminologia, ou fazer um intercâmbio num cassino em Vegas, ou viciar-se em endorfina e noradrenalina para amenizar os efeitos trágicos da nicotina e do álcool, ou... Seria possível uma conversa daquelas nos tempos idos de mil novecentos e Alexander Graham Bell? Alguém realmente se daria ao trabalho de tirar o cone de madeira do gancho, rodar a manivela, chamar a telefonista através do orifício e indicar-lhe o número a ser discado e depois
“Salles! E a dialética do discurso?!?!?”Sentou-se para fumar outro cigarro e lembrou-se de Violeta, o sorriso de Violeta, a boca de Violeta que desenhava mentalmente e com os dedos... E então apoiou o rosto na mão e “Que merda!”, esquecera completamente da espuma no rosto. A barba! Voltou ao banheiro e encarou seu reflexo no espelho. Limpou o rosto e fitou o seu duplo no espelho: “É preciso recomeçar.” Era mesmo necessário recomeçar... Todo aquele dia não se justificaria sem que o combinado internamente não se consumasse. Aquele momento que se repetia semanalmente rompia a barreira de ditames higiênicos ou de paradigmas estéticos. Aquele momento era o encontro marcado consigo mesmo, o seu instante meditativo, a sua linha de fuga. Então, antes de recomeçar, desligou o
Nokia e toda a sua urgência. Retomou nas mãos a navalha e amolou-a num pedaço de couro velho. Molhou novamente o rosto e aplicou a espuma. Acertou a navalha na pele e com movimentos rápidos e singelos ia desenhando no rosto o seu duplo para a semana que estava por vir. Forçoso era o pensamento voltar-se novamente para o jogo:
“Melville ou Kafka? Godard ou Truffaut? Lasanha ou cannelloni? Rimbaud ou Blake? Noel ou Cartola?” ad infinitum...