Saturday, August 18, 2007

hipnagógica

Awake awake awake!
Catalepsia
Letargia
Narcolepsia
Taxidermia

Awake awake awake!
De olhos bem abertos
Em pé dentro do sono
Em pé de novo
Range os dentes

I woke I woke I woke
Músculo rijo

Grita geme baba
Acorda e levanta
Sai da vigília
A corda puxa
De novo perto
A-l-u-c-i-n-a
Des perto Des pero
Pero poco vale
O esforço

Despierta! Allez! Awake!

Thursday, August 16, 2007

sangue na boca

há dias que corria pela selva com as orelhas em riste, o olhar vítreo, a boca espumava sangue. todo o pêlo espesso e sujo de lama e pó, carrapatos atrás das orelhas, cravos e espinhos nas patas. renunciara à dor, ao cansaço e à sede. corria entre galhos e pedras e rios e só. no vale teve uma visão. não sabia ao certo se era uma visão. num instante estava correndo, e de repente um estampido cessou-o. o olfato trouxe-lhe lembranças escolares, memórias marginais e odores de cozinha; um canto epopéico esmoreceu-o. depois, era como se canais de tevê zapeassem em flashes de milésimos de segundos (___________) e acordou na relva. o sangue escorria pela barba. agradava-lhe o gosto metálico do líquido vermelho-amarronzado. po(^)r (su)posto era um cão que sabia não(-)ser pois não pensava. assim seguia raspando os solecismos cartesianos, fazendo-os delirar até que seus arcos catenários perdessem a solidez. levantou-se e continuou a correr pelo asfalto, a fuligem contra o focinho e os olhos, a garoa fina sobre o seu pêlo, o cheiro podre dos esgotos. os prédios e barracos passavam em alta velocidade em sua volta tentando esmagá-lo enquanto esganiçava o seu escárnio contra todos os viciados em fantasias. o sangue banhava-lhe o peito. seguiu em saltos adiante, os olhos em brasa em sua busca infinita pelo último dos girassóis, deixando para trás somente o rastro de sangue dos parasitas.

Monday, July 30, 2007

Descanse em paz

"I shall remember this moment: the silence, the twilight, the bowl of strawberries, the bowl of milk. Your faces in the evening light. Mikael asleep, Jof with his lyre. I shall try to remember our talk. I shall carry this memory carefully in my hands as if it were a bowl brimful of fresh milk. It will be a sign to me, and a great sufficiency." Antonius Block, "The Seventh Seal" (Det Sjunde Inseglet)

Ingmar Bergman, 14/07/1918 - 30/07/2007

Thursday, July 19, 2007

Duplo



Aqui é o meu Kibbutz
O contra-registro do hipocampo

Aqui asso o meu pão
Divirto-me com meu circo

Meu Gran Cabaret Demenzial
Minha tontería

Por isso caminhe neste paço com esmero
E extremo tato

Ou então não perturbe
Quem já é por excesso perturbado!


foto: Henri Cartier-Bresson - "Man Leaping"

Friday, July 13, 2007

paraskavedekatriaphobia

nunca foram para mim, nenhuma daquelas palavras sacanas. desde que foi acordado por um tratado de reciprocidade a respeito do jogo a ser jogado. esclareci: só jogo com o coringa, a possibilidade infinita, sem blefes, apenas possibilidades. das regras me lembro muito bem: não há vencedores ou vencidos, mas é ímprobo aquele que entra para disputar e sairá ferido, sangrará. então deixe essa coisa ir. todo esse lixo paranóico que faz questão que eu escute soa um pouco como jogo de azar para mim, por isso vou atirar meus dentes no telhado, me trancar num quarto blindado e orar para Thor me proteger até passar esse bad trip. de Lokis e AI-5’s o mundo já está cheio...

Tuesday, July 03, 2007

ficando assim que se vai galopando a passos largos em linha reta que no espaço curva e sempre à espera/espreita de que esses personagens saltem sobre o papel interrompendo essa dívida eterna de “2,50 por persorna” que não param de reclamar suas novas estações. sou um mero fator vetorial de um código binário em curto-circuito. o a(o)caso se impõe: conexões e cortes, o preto e o branco, a bola oito e a neutra, o positivo e o negativo: fatal como qualquer tragédia atabalhoada e fanfarrona. e o que está entre é sempre proporcionalmente inverso a tudo isto que é de facto e por isso angustiante tenebroso aterrorizante e... e belo. uma morte interminável que não cessa de se insinuar em alguma fenda de menos de half inch em um exterior muito íntimo --> basta seguir cinqüenta metros ladeira abaixo esperar pelo sol do meio-dia atravessar a rua entrar à segunda esquerda seguir adiante entrar no complexo Z da loja de departamentos galgar quarenta e sete degraus arrombar a pequena porta com o pé-de-cabra pendurado na parede inclinada num ângulo de 76 graus com o aviso EM CASO DE...” e espantosamente concluir que. então voltemos ao que importa: se o a(o)caso não tivesse explodido naquele instante com a bola neutra e a bola oito que escaparam furtivamente daquele platô verde-musgo com seis caçapas simetricamente dispostas quebrando-me o dedo médio do pé direito talvez nunca chegaria a pensar que as pipocas doces pudessem ser melhor apreciadas com uma pitada de canela em pó sabor curry e que o empreendimento da chapelaria é sempre uma ótima opção para os desassossegados. e o que está entre? aqui e ali se misturam o cheiro de lama o sal e o suor a reminiscência do sur a memória do lado de lá o gosto de pinhão pombos e merda de pombos e alpiste de pombos e muitos chistes. se é que podemos saber do que se trata somente por escrever. “Quem é Molloy?” e isso é pergunta que se faça??? Molloy, ah Molloy... Molloy são escaras de uma velha senhora moribunda na cama sob vigília constante; um peão de madeira de um infante que brinca no campo de batalha; uma casquinha de sorvete lançada para trás de um banco de praça; o gosto do líquido amarelo de uma lagarta esmagada por uma bicicleta; um salto quebrado na beira da calçada; um remo que afunda o lodo do lago do parque; uma linha verde que divide ao meio uma pintura de Klimt e sobe pelo braço de Cortázar; um gaguejar, uma furadeira, un briquet rouge, três vagabundos dançando a música que emana de uma loja de colchões (“e não é pra isso que ela serve?”). tudo isso funciona mais ou menos assim: apara o Cais de Sta. Rita, prega o Malecón, fura o Centre Pompidou, costura a Andradas e raspa a feira de San Telmo. de hoje em diante 11,65 flexões de braço por BPM seguidas de 13,39 polichinelos por Km² e 9,04 abdominais por perímetro urbano. para uma melhor performance dos exercícios acima será permitido o uso do Thunderbird 1950 motor V8 de 32 válvulas, DOHC, 3,9 l, que produz 252 cv a 6100 rpm e 362J de torque a 4300rpm. mind the gap & watch the parkin’ meters.


P.S.:Tenha sempre um pouco de anti-ferrugem a tira-colo. Você pode precisar.

Sunday, February 25, 2007

The lazy angel



Between midnight and dawn, baby we may ever have to part,
But there's one thing about it, baby, please remember
I've always been your heart.

Johnny Temple



(uma esfera oca e protuberante. assim é a minha cabeça de noite quando coloco os meus fones de ouvido. uma esfera oca e protuberante. Micaela me espera na cama. não se incomoda com a minha mania de bater com as pontas dos dedos na cabeça. faço isso para ter certeza de que está oca, de que as pancadinhas ecoam nos ouvidos tampados. não, não é bem isso. é somente mais uma forma de expressar a minha monotonia, mas me divirto com o passatempo assim mesmo. a música termina.) você quer água? não? não querida, não vou deitar ainda, quero fumar... acende um pra mim, por favor? (...) sabe amor, não sei o que você ainda espera de mim. do que estou falando? de tudo isso, todo esse enfado, toda essa indolência e principalmente esse papo de complexidade. por favor, não me interrompa agora. eu sei, eu sei que os cachorros estão latindo. deixe-os. em pouco tempo voltarão a uivar e tudo volta ao normal. (...) tenho saudades dos seus olhos. verdes, azuis, cinzas... hoje em dia só quer falar dessa cor violeta que te sufoca. a misantropia nunca foi o seu forte. Charlotte e Donovan perguntaram por você. pensam intimamente que sou eu o culpado dessa sua decisão bizarra. eles também gostavam de quando você usava as asas, respirava ares alpínicos. basta! o que há de complexo nisso? por que não me cospe na cara então? talvez assim teria certeza de que me ama de fato! sim querida! o amor é feito também de fel! mas tudo o que você quer são os cães, esses lençóis ensebados e falar de seres claviculares. desde quando se tornou tão pudica? clavículas meu bem? gostava dos seus modos para cones, os côncavos e os convexos. ah, claro, tem o faquir! amaldiçôo o dia em que resolvi comprar aquele faquir pra você! o quê? você quer que eu o chame novamente? ok! entre faquir! faça uma apresentação, entretenha-a. ai, ai... a corda bamba mais uma vez... bem, ao menos veio bêbado desta feita. aí está! bravo! quebrou a clavícula! justo a clavícula! vá! saia já! pobre homem... gosta de você, gosta de te agradar. outro dia chegou aqui com um corvo num ombro e uma pomba no outro. disse que estava trabalhando num novo número. acho que anda assistindo muitos filmes ingleses e todas essas coisas tolas... não, não durma ainda... tenho muito o que dizer. me escuta, me escuta, presta atenção... lembra de quando nos conhecemos, lembra? como era gostoso te ver cortando o espaço, criando vértices inefáveis com aquele balé vertiginoso! dançar contigo era um sobrevôo infinito. dali de cima podíamos recriar o mundo somente com o nosso suor, o nosso cheiro, a mão que tocava o rosto, a mão que tocava no sexo, a mão que tocava... não! não estou criando amálgamas! não vê que tento chegar naquilo de mais simples e belo que tínhamos? é lá que quero chegar: nas noites que caminhávamos seguindo as pistas das luzes de janelas entreabertas da cidade, revoluteando com desconhecidos e vagabundos que nos acompanhavam até uma pracinha muito íntima onde nos deixavam para bebermos vinho e nos beijarmos. você falava dos seus amigos e amantes, eu fingia prestar atenção em tudo, e você sabia disso, mas lhe agradava o meu jeito bobo. eu contava meus planos, e seus planos e meus planos de repente se encontravam em alguma curva oblíqua e tudo aquilo era muito espontâneo e cúmplice. queríamos aprender um ofício, nos sentíamos de certa forma, inúteis, limitados pelas fórmulas e letras. lembra dessa foto 3X4 que achei debaixo do banco naquela noite? parece com aquele amigo nosso, o Said. ele foi embora pra Paris, sabia? disse para irmos lá visitá-lo quando quisermos. claro que peço para ele te mandar alguns affiches, peregrina. você quer de algum filme da década de 50, né? disse que quando passar pela Pont Neuf se lembrará d'a gente, e que talvez compre pinhão, talvez leve o trompete, talvez alimente os pombos. do lado de cá, peregrina, você não quer saber de sair do canto onde começou a sua existência. mesmo as suas avencas que cuidava tanto e elogiava tanto, deixaste partir. tudo seu era feito com esmero. todos gostavam de estar ao seu redor, mesmo quando só dizia tolices. sim, me lembro sim de como tínhamos as mãos em forma de conchas, como quem se doa com delicadeza e cuidado. seu rosto tinha cheiro de nuvens trêmulas e traços intumescidos aonde deslizava meus dedos, meu nariz, a língua. cortávamos o tempo e o espaço com o riso, assassinando com prazer todos que se opunham à nossa dança, extirpando todo o constante e igual, abraçando o efêmero com gozo. me dá a mão, vem... olha, deixe esse violeta e esses perfis que passam de lá pra cá e pulsam em sua frente te sufocando. vem, os cães também já estão dormindo. olha lá fora olha, é Vênus que veio se despedir. vem peregrina, vem criança; assim, nessa cadência assim, abraçados assim e sempre e depois retornando... (Da capo)

Tuesday, February 13, 2007

Recital

Sentado ali naquela poltrona mal-cheirosa as coisas eram mais fáceis. Nada realmente acontecia. Sentia medo de que algo de muito especial realmente pudesse acontecer em sua vida. Não suportava a idéia do peso de uma possível responsabilidade que somente um fato novo poderia proporcionar. A presença constante dessa ausência era algo de repugnante. Repugnante também era mover-se, imprimir movimento a algo. Do sorriso das pessoas só guardava o escárnio – que está contido no gesto como um ônus irônico numa parcela de um décimo, não mais – na lembrança. Divertia-se com os animais, mas desses somente tem recebido visitas esporádicas de morcegos, bruxas e lacraias em horários não muito convenientes, atrapalhando um pouco mais o que já era difícil no dia-a-dia: pegar no sono. Havia um mês que abdicara também dos hábitos higiênicos. Chegara a uma lúcida conclusão de que tais hábitos não passavam de postulados falaciosos e que através de seus pêlos, orifícios, poros, piolhos e fezes conhecia melhor a si mesmo. Podia passar horas a fio observando uma gota de suor escorrendo entre os pêlos de seu peito até alcançar o porto seguro do umbigo ou sentir o rastejar infinito de pequenos parasitas descendo sua cabeleira até enfim caírem sobre seus ombros. Era capaz de compor extravagantes recitais ou mesmo de escrever magnânimos tratados teológicos após alguns instantes de contemplação destes pequenos acontecimentos. Mas optava não fazê-los. Toda a arte ou metafísica já não eram dignas de sua companhia.

Houve um tempo em que aquela casa havia sido palco de luxuosos encontros aristocráticos, onde a nata da beleza e das finas artes se agrupava para ceias voluptuárias regadas a boa música e saraus. Aqui e ali ainda se observava os resquícios de uma vida reta e afortunada, agora entrelaçada a infiltrações, poeira, mofo e musgo. No banheiro e na cozinha, azulejos vindos do Porto; os talheres de prata vindos de Paris; a louça de Pequim; um piano de cauda austríaco, tapeçaria turca e um candelabro milanês. Passeava agora por ali um obsceno, ostentando como medalha para o teto que o cobria a podridão e o cinismo. Orgulhava-se daquilo tudo, de ter trazido ao chão toda a riqueza, de ter desatado os mais firmes laços de afetividade com o mundo. “Da merda viemos e à merda voltaremos” pensava.

Certa feita, numa dessas noites de insônia, sentou-se no chão do banheiro e resolveu testar a resistência de suas pálpebras, negava-se a piscar os olhos. Depois de algumas horas lacrimejando, vendo vultos e mandalas multicoloridas percebeu que havia um pedaço de papel saindo da fissura de um dos azulejos da parede. Coçou os olhos sem pressa e voltou a atenção para o objeto. Tratava-se de uma pequena ponta de uma tira de papel, como aqueles que encontramos nos biscoitos da sorte chineses. Puxou um pedaço do papel e leu “X”. Aquilo o estremeceu de uma forma que não havia sentido há muito tempo. Sentiu um fisgar na espinha dorsal e se sobressaltou. “O que diabos vem a ser ‘X’? Como pode?”. Não pensou duas vezes: se lançou contra o azulejo decidido a encontrar a resposta daquele enigma absurdo. No restante do papel se lia somente “BO”. “ ‘BO + X = BOX... Mas BOX? Como assim BOX? Deve haver mais alguma coisa, mas não, não! As bordas estão simetricamente recortadas, o papel não está rasgado a não ser pelo meu próprio esforço de retirá-lo do azulejo quando obtive o ‘X’.... E agora cá estou: ‘BOX’! É um absurdo! Que merda é essa de ‘BOX’?” Não conseguia mais voltar ao seu centro. Lembrou-se de que acompanhou todo o processo de construção da casa. Havia sido enfático quanto à disposição dos azulejos que formavam um mosaico pitagoricamente harmonioso. Aquilo era um deslize indesculpável, uma afronta deveras. Como poderiam ter deixado passar uma coisa dessas? E o mais intrigante: como não teria percebido essa verdadeira insurreição materializada em celulose e tinta que passara todo este tempo rindo de seu desleixo? “BOX, BOX, BOX, BOX...”, repetia em voz alta tentando decifrar o temerário enigma da parede. Fazia cálculos euclidianos, associações de idéias, buscava raízes etimológicas da palavra, significados figurativos, numerologia, escrevera até uma poesia concreta... De nada adiantava todo o esforço e os anos de erudição. Sentia que aquela esfinge estava para engoli-lo.


“BOX; B-O-X; BOX!!!!!!” Estava convicto então de que aquilo só poderia ser obra de um diabo zombeteiro que o espreitava durante todos esses anos de decomposição. Raciocinou e chegou à única conclusão possível: “...reparar a casa, tomar um banho, fazer a barba e vestir roupas. Só assim conseguirei a resposta e o espírito maligno me deixará enfim em paz.” Pôs-se a limpar a casa de forma obstinada. Limpava cada canto empoeirado. Descobria a origem de cada infiltração, consertava-as e depois cobria com argamassa a parede castigada. Arrancou todo o musgo, bateu fora todo o mofo das almofadas. Limpou a cozinha, as louças, os tapetes, o candelabro, até afinou o piano. Depois de tudo encheu a banheira, tomou seu banho e fez a barba. Vestiu roupas e sentou-se na sala. A casa parecia nova naquela madrugada e até o perfume da dama da noite resolveu fazer uma visita. “Está tudo como o diabo queria, tudo em seu lugar”. E puxou do bolso os dois pedaços de papel, o “BO” e o “X”. Mas a resposta não vinha. “B,O,X... Vou esperar mais um pouco. (...) Quem sabe não vem um sinal. (...) Eu sei, eu sei, só pode ser... Onde estará? Falta, falta o sinal! Ele vem, ele virá! Hahahaha!!! Eu vou conseguir! Hahahaha! Ele achou que ia me pegar! Mas eu vou esperar... (...) Cadê?!? Cadê?!?! (...)” Estava absorto em especulações, a ansiedade vinha num crescendo. A respiração ofegante, as mãos se esfregando, o suor escorria pela testa... “Onde está?!? Ooondeeee?!?” O assombro já o dominava por inteiro, sentia o coração bater em seu peito como uma marreta, o sangue que subia o sufocava. Era impossível continuar esperando a resposta, corria desesperado pela casa gritando e rasgando as roupas, batia afoitamente as duas mãos contra o piano proporcionando um espetáculo macabro. “BBBOOOOXXXX!!!!!!!! BBBBBOOOOOOXXXX!!!”

“OLHA O PI-CO-LÉ!”,o ambulante aproveitava a grande e inesperada movimentação daquele dia quente do bairro. Os vizinhos esperavam ansiosos na porta o desfecho da investigação, pois haviam passado por uma madrugada de puro terror. Há muito, sequer viam luzes acesas naquela casa, e de repente a noite é irrompida por um pandemônio de gritos e estrondos. O mal-estar era visível naqueles rostos afoitos e temerosos. “Só pode ser assombração”, dizia uma senhorita franzina à amiga. “Não há mais moralidade e decência nos dias de hoje, vocês ouviram aqueles gritos? Isso pra mim é baixaria!” assuntavam três aposentados. Enfim o detetive sai da casa e põe-se ao interrogatório. Segundo ele não havia indícios de um assassinato, mas o defunto não tinha identificação alguma. Ninguém por ali também conhecia o causador de todo aquele picadeiro infernal que mudou a rotina maçante do bairro. O oficial, intrigado, compra um picolé e põe-se de lado tentando encaixar as peças daquele quebra-cabeça sinistro que se lhe apresentava. Nesse momento surge misteriosamente um senhor maltrapilho e pestilento que entrega ao investigador um pequeno pedaço de papel. O homem toma o papel e desdobra-o para ler “Bartolomeu Otaviano Xavier”. Quando levanta a cabeça novamente, nota que o sujeito havia desaparecido, deixando para trás somente o seu cheiro repugnante.

Friday, September 08, 2006

Fazendo uma pausa devido à falta de paciência e cansaço. Deixo este pequeno excerto para a degustação de vossas senhorias:

"Você me pergunta sobre aquilo que mais temo. Não é minha própria morte, certamente não é isso. Para mim, minha morte será simplesmente a porta se fechando suavemente para os sons que perturbam, obcecam e perseguem meu sono. Nunca cortejei a morte, como você faz. Você vê a morte como seu parceiro de dança, o outro com os braços à sua volta. Sua morte é o outro que você espera, procura, cuja violência é a resolução de seu desejo. Mas não aprenderei minha morte com você, que se diverte num sonho fácil de escuridão e sangue. É um flerte romântico com a violência, o filho bem-educado do médico chapinhando nos esgotos, antes de voltar para casa e transformar tudo numa polêmica barroca que o tornará famoso. Escolho o sol, a luz, a vida. E sim, naturalmente nós vivemos à margem. Você me ensinou a habitar os extremos. Você me ensinou que as fronteiras de viver e pensar são os únicos mercados a que o conhecimento pode ser levado, a preço alto. Você me ensinou a ficar à margem da multidão reunida em torno das mesas de jogo, a ver claramente tanto os jogadores quanto a roleta. Cher maître, você me acusa de não ter moral, escrúpulos, inibições, arrependimentos. Quem a não ser meu mestre podia ter-me ensinado a ser assim? Aprendi a ser com você."


Trecho do livro "Alucinando Foucault", de Patricia Duncker

Monday, August 21, 2006

***SAMO'S DAY OLD TEETH $5.00***

Basquiat, Sem Título
Morning seems strange, almost out of place.
Searched hard for you and you special ways.
These days, these days.
Spent all my time, learnt a killer's art.
Took threats and abuse 'till I'd learned the part.
Can you stay for these days?
These days, these days.
Used outward deception to get away,
Broken heart romance to make it pay.
These days, these days.
We'll drift through it all, it's the modern age.
Take care of it all now these debts are paid.
Can you stay for these days?
"These Days", Joy Division

Sunday, August 20, 2006

"Sunday's Best"

Wind, wine and inner war.

Lições para a(r)mar

Pise em falso dez vezes ao dia,
se arrebente em sua cerca-viva
de certezas e convicções mesquinhas.

Lamba as escaras sete vezes retorcidas
por antigas misérias de meninices
e salte cuspindo em seu coma induzido.

Solte essas asas, mil vezes cortadas
por ilusões libertárias,
vá de encontro à malfadada Navalha.

Expurgue seus demônios,uma vez sequer!
Desdenhe a cortesia e a gentileza!
"Agradeça a quem te machuca"!

Só assim irás me ter/conhecer.

Até lá, meu bem,
não há nada que possas me mostrar
por detrás do seu muro.

Wednesday, August 16, 2006

em tempo

"Muitos pavões escondem de todos os olhos a sua cauda de pavão - e chamam isso de seu orgulho."

"O neutro, o neutro. Como isso me soa estranho."

F.W. Nietzsche

Behind the curtains (ou sobre homens e ratos)

Francis Bacon - "Study from the human body", 1981

ah! pequenos fragmentos de miséria que se revelam no amarelo dos dedos indicador e médio e em mais um retrato em branco e preto. tentar ser outro, abstrair o presente numa bebida, num cigarro e num jazz orquestrado.

o tempo, a memória... sorvo o suco encantador que me ofereces do seu claustro de prazeres, et alors, frenesi, fervor, serenidade e metafísica (chocolates, obviamente, não é pequena imunda?). toda a cidade se silencia nessa noite, mais uma vez.

ah! mas lembram-me que a casa está vazia e que a mulher não volta. "sempre retorna" diz o amigo "em maior ou menor intensidade, nunca igual, mas sempre retorna!". mesmo enfastiado de tomar provas dessa assertiva, mesmo sabendo que em algum lugar hei de reencontrá-la para nos reduzirmos a um faixo de luz que escapa de uma água-furtada qualquer para a cidade enfumaçada, retruquei categoricamente:"ta gueule mon pote! se ao menos soubesse da anestesia da ponta da minha língua!"

por isso, está decidido: vou-me embora para longe, para algum lugar onde possa ser pura expressão. quero tornar-me um estrangeiro até mesmo para mim e adotar um nome elegante qualquer e criar toda uma nova história fundamentada em sorrisos amarelos e condescendências: "Tristan Reveur, a votre service! ... pas du feu monsieur, mais j'ai un briquet bic bleu si vous voulez..."

ontem encontrei com alguns ratos. elas não gostam dos ratos, a não ser uma e eu e mais dois nesse picadeiro de realismo e gentileza vulgar. houve um dia em que forramos suas barrigas com pedaços gordurosos de queijo pachá. "merci mounsieurs et madames! vous êtes trés gentils!" diziam, gesticulando as suas patinhas vorazes. "mas, você aí - disseram-me - não bata a cabeça contra o ocaso! o ocaso, oras pois!". lição número 1 do evangelho de Ratatustra. ignorei o alerta e resolvi permanecer: vi a sua silhueta saindo do banheiro. não, não era você. o ocaso me pregara outra peça. mas eu também já não era eu, e sim algum qualquer deitado olhando para a luz, sentindo novamente aquele violeta pulsante que vai tomando conta de tudo. a mulher e outro haviam me explicado que isso era somente um movimento de dilatação do coração. nada para se preocupar, nada para se assustar e, principalmente, nada para se procurar. ainda não, de qualquer forma.

"continue somente brincando com intensidades!" - aconselharam.
"Tristan Reveur, a votre service!" - respondi.



Friday, July 28, 2006

Nota encontrada em uma gaveta do quarto durante absurda crise de insônia:

"Agradeço essa injustiça, essa afronta que me despertou,
e cuja sensação viva lançou-me para longe de sua causa
ridícula, dando-me também tamanha força e tamanho gosto
por meu pensamento que, por fim, meus trabalhos tiveram
o benefício de minha cólera; a busca de minhas leis tirou proveito
do incidente."

Paul Valéry



Tuesday, July 25, 2006

Mis pasos en esta calle
Resuenan
En otra calle
Donde
Oigo mis pasos
Pasar en esta calle
Donde
Sólo es real la niebla.

Octavio Paz

Wednesday, July 19, 2006

A dialética dos pêlos

Um pouco de água no rosto, de preferência quente. Mas na casa do Salles não havia uma torneira com água quente. Depois, aplicar um pouco de espuma nas áreas da face e do pescoço, acender um cigarro... Então, é preciso que a lâmina esteja posicionada rente à pele, os movimentos leves e precisos para cima ou para baixo, nunca para os lados. Fazer uma barba era uma experiência sagrada para Salles; para ele, a soberba eficácia dos aparelhos Mach 3 ou Philishave acabaram por destruir a dignidade ontológica de um homem poder desfrutar de todo o tempo que se fizer necessário para melhor aparar seus pêlos do rosto. Isso sem mencionar a indiscutível superioridade da precisão proporcionada por uma boa navalha.

Continuava ali nesse exercício prodigioso, de vez em quando dando um trago em seu cigarro deixando a enorme cinza se espatifar silenciosamente dentro da pia. Pensava em Cole Porter e seus dois preferidos intérpretes (“Afinal, Ella ou Sinatra?”) e no quanto esses exercícios de comparação acabam sendo somente um pequeno jogo onde não há vencedores ou vencidos. “Mas como preferir um a despeito do outro? Chaplin ou Keaton? Pelé ou Garrincha? Bossa nova ou samba? Cachaça ou vodka?” E assim ia, ad infinitum. Nesse momento em que sua mente se encontrava completamente imersa no jogo - em que a única regra consistia em eleger dois titãs de uma mesma categoria, colocá-los face a face no ringue e, antes da luta se iniciar, considerar um empate técnico – seu celular, como um cínico zombeteiro, grita ansioso em seu quarto. Nada deixava Salles mais mal-humorado do que atender um telefone, principalmente no dia e hora reservados para se aparar a barba. Não obstante, sentia uma terrível culpa em não atender uma chamada, por mais que aquilo o incomodasse sobremaneira, não conseguia simplesmente deixar tocar. Sempre se imaginava responsável pelo acaso de não ter respondido uma chamada.

“Violeta.”, murmurou após olhar o visor do aparelho. E, nesse milésimo de segundo que separou a conferência da chamada e o ato de atendê-la, Salles intrigou-se com aquela pequena máquina que tinha em suas mãos. Antes era preciso girar uma manivela para chamar a telefonista, colocar um cone de madeira no ouvido e falar através de um orifício. Pelo menos agora não corria o risco de ser incomodado pelo barulho estridente daquela campainha composta por dois gongos cilíndricos metálicos separados por um pequeno martelo que os vibrava em uníssono quando recebia ligações.

- Oi? - atendeu secamente.
- Sal! - a voz de Violeta estava trêmula, o nervosismo era óbvio - Querido, é que eu estou com pressa, me explique o que é dialética do discurso...
“Por sorte, tudo vai muito bem no melhor dos mundos possíveis”. Salles lembrou-se dessa frase, lida em algum livro, que fazia alusão à “Cândido”. - O quê?!?! – perguntou subitamente, ainda meio sem entender, procurando se inteirar de mais detalhes daquela situação absurda.
- Estou saindo da aula e meu professor falou isso, me ajuda...
- E você precisa disso nesse instante? - “ Onde errei nesse processo? Espuma, navalha, posicionamento da navalha no rosto, o cigarro, espelho na frente para as devidas orientações espaciais, o pensamento no jogo... E agora essa!!! Dialética do discurso em dois minutos por telefone...”
- É Sal! Pra ontem porra! Quebra o galho pra mim!
- Violeta me fala pelo menos o contexto da...
- Não tenho tempo para contextos! Me diz aí o que você puder...
- Tente um dicionário ou...
- Não enche Sal, vai!
- Ok then...

Em tempo recorde, e não com muita destreza na oralidade (que fora sempre o seu fraco, tinha predileção pela palavra escrita), Salles discorreu de Platão a Hegel, de Wittgenstein a Barthes, tropeçando nas palavras, tentando com afinco – e a contragosto - ser claro e distinto num instante em que só obscurantismo e conceitos fugidios vinham-lhe ao pensamento. Noel e sua gagueira apaixonada saltaram-lhe à cabeça naquele instante: “Mu... mu... mulher, em mim fi... zeste um estrago/ Eu de nervoso esto... tou fi... ficando gago”. Tentava se concentrar para não gaguejar, mas também para não rir do sambinha desajeitado do moço de Vila Isabel: “Clareza, distinção, falar pausadamente. Clareza, distinção, falar pausadamente...”. Por fim conseguiu arrancar algum bloco meteórico de incertezas e transmiti-las para Violeta.

- Obrigado querido! Salvou meu dia! Cervejinha no “Vittorio’s” quinta-feira?
- É uma...
- Combinado então. Beijo!
- Beijo!

“CLAP!” Uniu as duas mãos num tapa, balançando-as e olhando para o alto como que numa súplica aos céus. Tentava entender como todas as coisas mais irrelevantes (como a dialética do discurso) de repente se tornaram as coisas mais urgentes. E, no final, como todas as coisas se tornam urgentíssimas! É necessário correr e escrever logo o projeto de mestrado, ou começar uma pós-graduação em criminologia, ou fazer um intercâmbio num cassino em Vegas, ou viciar-se em endorfina e noradrenalina para amenizar os efeitos trágicos da nicotina e do álcool, ou... Seria possível uma conversa daquelas nos tempos idos de mil novecentos e Alexander Graham Bell? Alguém realmente se daria ao trabalho de tirar o cone de madeira do gancho, rodar a manivela, chamar a telefonista através do orifício e indicar-lhe o número a ser discado e depois “Salles! E a dialética do discurso?!?!?”

Sentou-se para fumar outro cigarro e lembrou-se de Violeta, o sorriso de Violeta, a boca de Violeta que desenhava mentalmente e com os dedos... E então apoiou o rosto na mão e “Que merda!”, esquecera completamente da espuma no rosto. A barba! Voltou ao banheiro e encarou seu reflexo no espelho. Limpou o rosto e fitou o seu duplo no espelho: “É preciso recomeçar.” Era mesmo necessário recomeçar... Todo aquele dia não se justificaria sem que o combinado internamente não se consumasse. Aquele momento que se repetia semanalmente rompia a barreira de ditames higiênicos ou de paradigmas estéticos. Aquele momento era o encontro marcado consigo mesmo, o seu instante meditativo, a sua linha de fuga. Então, antes de recomeçar, desligou o Nokia e toda a sua urgência. Retomou nas mãos a navalha e amolou-a num pedaço de couro velho. Molhou novamente o rosto e aplicou a espuma. Acertou a navalha na pele e com movimentos rápidos e singelos ia desenhando no rosto o seu duplo para a semana que estava por vir. Forçoso era o pensamento voltar-se novamente para o jogo: “Melville ou Kafka? Godard ou Truffaut? Lasanha ou cannelloni? Rimbaud ou Blake? Noel ou Cartola?” ad infinitum...

Wednesday, July 05, 2006

(...)

Dance me to your beauty with a burning violin
Dance me through the panic 'til I'm gathered safely in
Lift me like an olive branch and be my homeward dove
Dance me to the end of love
Dance me to the end of love
Oh let me see your beauty when the witnesses are gone
Let me feel you moving like they do in Babylon
Show me slowly what I only know the limits of
Dance me to the end of love
Dance me to the end of love
Dance me to the wedding now, dance me on and on
Dance me very tenderly and dance me very long
We're both of us beneath our love, we're both of us above
Dance me to the end of love
Dance me to the end of love
Dance me to the children who are asking to be born
Dance me through the curtains that our kisses have outworn
Raise a tent of shelter now, though every thread is torn
Dance me to the end of love
Dance me to your beauty with a burning violin
Dance me through the panic till I'm gathered safely in
Touch me with your naked hand or touch me with your glove
Dance me to the end of love
Dance me to the end of love
Dance me to the end of love
Dance me to the end of love - Leonard Cohen

Thursday, June 29, 2006

Fragmento Extemporâneo

nessas vértices oblíquas encimesmadas de outrem e outrora vocês persistem, teimam em me mostrar os cacos que larguei esparramados alhures em variadas cores (verde, púrpura, vermelho, azul...). e então, empunhados contra a luz, ameaçam paixões e convicções nunca antes esboçadas, questões indissolúveis que esperam por um impossível A+B=C, um diagnóstico espúrio e temível ou um post-scriptum dissertativo acerca da grande oferta da culpa. logo deste, que já não sou eu quem digo e que corta este espaço num suplício de um puro abraço ou beijo esquivado em outro tempo.

DAMN YOU! que não compreendem que a epifania pode ser encontrada em doses cavalares de lascívia e em doses homeopáticas de alcalóides ( C11 H17 O3 N). obsedem-se então de mim, rasguem-me as veias se assim vos apraz! e com pesar constatarão que já não vivo aí aonde pensam me encontrar, mas num solo do Sonny Rollins, me divertindo num jogo com Alice ou caminhando no piano de Liszt. e a despeito do vosso pranto repressor, meus sentidos me demonstram qualquer coisa de belo que talvez se assemelhe com a Via-Láctea ou a aurora boreal: uma algazarra sensorial aonde me lambuzo e depois lambo os dedos em regozijo infanto-juvenil.
HIGHLY RECOMENDED!


"A serpente que cinge o mar e é o mar,
O repetido remo de Jasão, a jovem espada de Sigurd

Só perduram no tempo as coisas
Que não foram do tempo."

Eternidades, J. L. Borges